Judá Abravanel & os Diálogos de Amor: o sefardita e sua poética criptojudaica

Minicurso ministrado no I Simpósio Nacional Estudos Criptojudaicos (SINACRIPTO), ocorrido na Universidade Federal de Sergipe, nos dias 04 e 05 de maio de 2015. Programação do evento disponível em: <http://www.sefarditas.net.br/sinacripto/index.html>.

EMENTA DO MINICURSO

Nascido em Lisboa em data imprecisa entre 1460 e 1470, Judá Abravanel foi, desde novo, dedicado ao estudo, à contemplação e ao típico modelo de ensino e aprendizagem das destacadas famílias judaicas de sua época, modelo este marcado por um substancial programa de estudos em que incluíam “as grandes fontes de sabedoria árabe e, sobretudo, hebraica, como mesmo as grandes manifestações clássicas, gregas ou latinas, do saber ocidental.”, como atenta seu biógrafo João Vila-Chã (ABRAVANEL, 2001:10). Mas a primeira característica que faz diferenciar seu desenvolvimento intelectual é a condição de ter sido filho de Isaac Abravanel (1437-1508), conselheiro e tesoureiro de D. Afonso V, cujo destaque na corte portuguesa chegou a “despertar rivalidades” (SALVADOR, 1978:2) contra a atuação dos judeus. A seu pai, sua personalidade muito deve; tanto em seu desempenho público, na sinagoga e na corte, quanto em orientações pessoais, seu pai lhe transmitiu a iniciação nos segredos da Cabala e nas reflexões filosóficas de autores como Aristóteles e Maimônedes.

Também conhecido como Leão Hebreu, o estudo da identidade histórico-religiosa de Judá Abravanel, contida na obra Diálogos de Amor, propõe uma perspectiva de errância do ser-em-exílio, ou seja, a vivência da condição humana em termos de paixão e dor, própria da mentalidade sefardita que se fortalece a partir desse período, como judeu disperso. A poética ali presente manifesta uma teoria do amor produzida com forte influência, dentre outros, de Marsilo Ficino e Jochanan Alemanno, este último um dos precursores hebraicos do humanista Pico della Mirandola, e a quem se atribui ter proporcionado o encontro entre ambos. Não somente seus Diálogos de Amor estrelaçaram as Escrituras Judaicas com o ensino de Platão, Aristóteles, os estóicos e os árabes (sobretudo Averróis e Avicena), mas também influenciaram a obra de autores posteriores como Giordano Bruno, assim indicam pesquisadores recentes. A perspectiva neoplatônica ali presente concebe o amor como princípio universal, unindo o inferior ao superior, o universo com seu criador; aliás, ele entende a criação como dado apriorístico, por isto “ele se entrega à refutação da tese aristotélica da eternidade do mundo” CALAFATE (Iehudad Abravanel, 2000). Assim, em métodos de artista renascentista, “Abrabanel engenhosa e habilmente navega pelos princípios filosóficos do amor, do belo, e o desejo de alcançar uma verdadeira estrutura literária em seus Diálogos.” (HUGHES, 2014) É assim que descreve o desejo de Fílon por Sofia como reflexo do mesmo desejo de Deus (o superior) pelo mundo (o inferior).

PROGRAMA DO MINICURSO

Apresentação
I. Delimitação do tema
II. Judá Abravanel: vida e obra
II.1 A vida: Sefardita
II.1.1 Em Espanha
II.1.2 Em Portugal
II.1.3 Em Itália
II.2 A obra: Diálogos de Amor
II.2.1  Pressupostos para investigação da obra sefardita
II.2.2 Influências recebidas
II.2.3 Influências transmitidas
III. Poética Criptojudaica
IV. Parâmetros para novas investigações
Conclusão

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

ABRAVANEL, Judá (Leão Hebreu). Diálogos de Amor. Apresentação de João Vila-Chã, S.J. Tradução de Giacinto Manupella. Coleção Pensamento Português. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001, 417p.

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