Membro do FTCosmo/Mackenzie

Em fevereiro de 2022 o Grupo de Pesquisas Filosofia e Teoria da Cosmovisão (FTCosmo) da Universidade Presbiteriana Mackenzie expediu edital para seleção de novos membros. Com satisfação, cumprindo as exigências acadêmicas, fui aprovado no referido processo.

Para a qualificação apresentei o projeto de pesquisa denominado: “O DIREITO DE RESISTÊNCIA EM JOHANNES ALTHUSIUS E JOHN LOCKE: UMA LEITURA COMPARADA DAS OBRAS POLITICA E SEGUNDO TRATADO SOBRE O GOVERNO EM BUSCA DE MATIZES COMUNS“. Esta é a abordagem inicial que me introduz em tão conceituado grupo acadêmico.

Ligado ao Centro de Educação, Filosofia e Teologia da UPMackenzie, o FTCosmo existe desde 2018 e funciona sob a coordenação do Prof. Dr. Jonas Madureira.

No correr da pesquisa apresentarei aqui o desenvolvimento das investigações.

Detalhe da entrevista de acesso após aprovação. Ao lado, Igor Mendes, secretário do FTCosmo e colega de pesquisa.


Fica o registro, com satisfação.

SDG

Temos Advogado

Meu filho mais velho, mercê de Deus, que se graduou em direito e passou nas duas etapas do exame de classe, hoje prestou juramento de ofício na ordem dos advogados. Temos um advogado.

Noutros tempos, estaríamos bem encaminhados na sociedade. Segundo costume passado, uma família digna teria entre seus filhos, pelo menos, um médico, um militar, um advogado, um politico e um sacerdote. Nós, temos um advogado.

Chamá-lo de doutor é uma obrigação legal. D. Pedro I tratou de formalizar o título ao instituir o curso de ciências jurídicas em São Paulo e Olinda. Segundo o costume de Coimbra, adotado de Bolonha, os advogados, apesar de bacharéis, seriam por decreto real chamados de doutores. O decreto de 11 de agosto de 1827 foi renovado, adentrou a República e tornou-se mandato. Eles que se entendam com os médicos, que também gostam de serem chamados de doutores. A despeito da querela, temos um doutor, temos um advogado.

Curiosa essa dinâmica exigida pelos homens. Se alguém não fizer o curso não se torna bacharel. Se não fizer duas vezes o exame da ordem de classe, não se torna advogado. Se não for advogado, não pode representar outrem em juízo. Há nisto uma dinâmica da suspeita. Não bastaria sua graduação? Não bastaria etapa única no exame dos colegas? Não bastaria um pedido de confiança feito ao juiz? Não, não basta! Os homens sempre se relacionam numa dinâmica de suspeita. Porque, no fundo, quando diante do juiz severo, suplicando por suas causas, a última coisa que o paciente deseja é suspeitar de seu advogado. Quanto mais carimbo que acalme a consciência, melhor.

Os homens sempre querem algo a mais, um plus, para exercer confiança, ter fé plena. Alimentando um fio de esperança, o paciente evita lembrar que está ao lado de um homem falho, que foi examinado por homens falhos, graduado num ambiente onde permeiam a falha e a dúvida suplantadas pelas impostações verbais da oratória. Uma lei aqui, um vade mecum ali e, no fundo, despidos das togas e sua empáfia, os jurisconsultos estão clamando: “Por favor, um artigo ou inciso que aspire confiança diante do juiz!!”

Chegando a este momento, você, como eu, já não deveria depositar tanta confiança só por ter um advogado ao seu lado. Data venia, doutor!

Mas há uma saída. Sim, um jeito de confiar plenamente suas causas, sem reservas, sem recursos ou apelações. Temos Advogado, não aqui, mas junto ao Pai, o justo juiz de nossas almas!! Causa já ganha, decisão favorável proclamada. Cumpra-se!

“Caros filhinhos, estas palavras vos escrevo para que não pequeis. Se, entretanto, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1João 2.1)

A ausência de pronome indica que o Advogado é definido, único. E não há outro (Atos 4.12).

Advogado, o que toma por sua a voz de outrem ao lado. Em grego vulgar, parakletos, o que encoraja para batalha com palavras de consolo.

Se alguém é tomado pela causa do Advogado, estará consolado no tribunal de Deus. Não inverti os termos pois, sim, a causa é dele. Repito: se alguém é tomado pela causa do Advogado, estará consolado no tribunal de Deus. Neste tribunal só há um Advogado; sem ele, sem defesa.

O julgamento é inevitável, com ou sem defesa, “porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou mal que tiver feito por meio do corpo.” (2Coríntios 5.10). Todos compareceremos, com ou sem causídico.

Consola-nos que, sim, temos Advogado!

Creia.

29nov2021 AD
Soli Deo Gloria

A melancolia do amor em Judá Abravanel (Leão Hebreu)

A investigação específica da melancolia como tema de estudo nos Diálogos de Amor nos indicam que existem seis ocorrências no texto de Leão Hebreu, as quais abordaremos brevemente. Elas surgem no correr dos três livros que formam a opus magnum de Judá Abravanel, numa progressão de entendimento, como é próprio do texto de Abravanel, conduzindo o leitor ao ensino numa crescente expositiva. Primeiro, a definição dos conceitos, em termos mais universais (ABRAVANEL, 2001, p. 64). Segundo, leitura neoplatônica  (ABRAVANEL, 2001, p.142); terceiro, uma leitura alegórica e mitológica (ABRAVANEL, 2001, p. 166, 167); quarto, uma leitura astrológica e natural (ABRAVANEL, 2001, p. 178); por fim, uma leitura que chamo aqui de amorável (ABRAVANEL, 2001, p. 240) porque nela Filon busca convencer Sofia dos efeitos que lhe causam o amor não correspondido. 

No primeiro livro, dedicado a definir a relação entre amor e desejo, a tônica está em saber se o amor desejado permanece depois de conseguido.  Primeiro, Filon esclarece quais sejam as três espécies de bom: o proveitoso, o deleitável e o honesto, qualidades que também estão presentes nas três espécies de amor (ABRAVANEL, 2001, p. 64, 65). Cansada de rodeios, Sofia pede que Filon seja mais direto, e ele diz:

“O útil, como sejam as riquezas, bens particulares de aquisição, nunca são amadas e desejadas conjuntamente. Antes, quando não se têm, desejam-se mas não se amam, por serem doutros; quando, porém, são adquiridas, cessa o desejo delas e então amam-se como coisas próprias, gozam-se com união e propriedade. (…) aqueles homens, cuja vontade se orienta para o amor útil, tem diversos e infinitos desejos, e quando cessa um pela aquisição, outro sobrevém, maior e mais sôfrego, de tal modo que nunca saciam a sua vontade de semelhantes desejos, pois quanto mais possuem, mais desejam (…).” (ABRAVANEL, 2001, p. 71).

Argumentando para conquistar Sofia, Filon defende que há coisas que são amadas antes de serem possuídas ao mesmo tempo em que também são desejadas. E como, ao serem possuídas, falta-lhe o desejo, é de se concluir “que o amor e o desejo podem estar juntos” (ABRAVANEL, 2001, p. 65).

Quanto ao amor deleitável, Filon entende que ele é sem medida quando se lhe acrescenta o desejo. Reforça o amante à amada:

“Tu hás-de saber que na pura apetência do deleitável existe um prazer da imaginação, conquanto ainda se não goze de facto; o que se não dá com o anseio do útil, cuja falta, pelo contrário, causa tristeza àquele que deseja. É por isso que verás geralmente homens apetecedores do deleitável serem alegres e prazenteiros, e os ávidos do útil serem descontentes e melancólicos.” (ABRAVANEL, 2001, p. 76).

Eis aqui a primeira ocorrência da melancolia no texto de Leão Hebreu. E é muito significativa, pois nos indica que a melancolia está atrelada ao exercício do bem útil. Enquanto o deleitável se contenta com a imaginação até consumar o amor, o útil só se deleita na posse real. Aquele que se apetece pelo deleitável prova, também, o prazer da imaginação, de modo que não se torna infeliz por ainda não consumar, de fato, o amor. Melancolia e descontentamento são frutos dos que estão ávidos desejando o amor útil.

Perturbado pelo amor não correspondido por Sofia, Filon argumenta o quanto é difícil seguir a razão visto que o amor verdadeiro violenta a razão e a pessoa amante, tornando-a “inimigo do prazer e da companhia, amigo da solidão, melancólico, cheio de paixões, rodeado de sofrimentos, atormentado de aflição, martirizado de desejo, (…)” (ABRAVANEL, 2001, p. 107).

O próximo ensino sobre melancolia em Abravanel dá-se no entendimento das três partes constituintes do corpo humano, uma por sobre a outra, como igualmente se estrutura o mundo. Nesta fase dos Diálogos de Amor, Leão Hebreu deseja apresentar o homem zodiacal, ou seja, a observação do homem como simulacro de todo o universo. Segundo ele, a melancolia está situada na primeira parte do corpo, parte inferior, e corresponde às características dos membros da geração e da corrupção. São as qualificações mais básicas do ser humano, encontradas da medida da cintura do corpo humano para baixo, “corresponde ao mundo inferior na geração do Universo” (ABRAVANEL, 2001, p. 142). Ali se encontra o humor melancólico, frio e seco, correspondente às qualidades da terra.

A próxima ocorrência se dá no ensino mitológico de interpretação alegórica. Ela acontece na correspondência que existe entre a Terra e o planeta Saturno. Recorrendo aos antigos ensinos como encontrados na Teogonia de Hesíodo, depois de abordar a origem dos deuses, e as opiniões de Platão, Aristóteles e o ensino deste relacionado com Plotino, Abravanel propõe um questionamento por boca de Sofia. Ela quer saber quem nasceu do Céu, ou de Urano, a depender da tradição. Saturno é a resposta. E explica: Urano se enamorou de Vesta, noutras palavras, o Céu copulou a Terra. Dela nasceu, entre tantos, Saturno. Mais voltado para a Terra, Saturno é afeito à agricultura e com as mesmas características de sua mãe, frio e seco. “Saturno foi de natureza tardonha e melancólica, à maneira da Terra; e alegoricamente a Terra, como te disse, é a mulher do Céu na geração de todas as coisas do mundo inferior.” (ABRAVANEL 2001, p. 166).

Por esta razão, os melancólicos são também associados aos saturninos, pois que as características que esse planeta apresenta, advindas da Terra, sua mãe, refletem-se nos homens. Diz Filon:

[E] torna os homens nos quais predomina melancólicos, tristes, graves e morosos, da cor da terra, inclinados à agricultura, à actividade fabril e a ofícios terrenos, pois é o planeta que governa também todas estas coisas da terra. Pintam-no velho, tristonho, feio no parecer, cogitabundo, mal vestido, com uma foice na mão, porque assim torna os homens que domina, e a foice é instrumento da agricultura, à qual os torna inclinados.” (ABRAVANEL, 2001, p. 167)

Para os romanos, Saturno, para o gregos, Cronos. Ambos, e o mesmo, propensos a estabelecer o tempo certo, definido, pondo fim às épocas com seu tempo determinado; cortante, frio e seco, sem empatia, apenas desejoso de exercer o amor de si nos propósitos em que se determina. É o efeito da melancolia no amor.

Segundo Abravanel, esse amor sempre surge em dupla, em duas expressões, honesto e deleitável, “porque o verdadeiro amor deve ser gêmeo e recíproco nos dois amantes. E juntos geram as Graças, já que nunca existe amor sem graça em ambas as partes.” (ABRAVANEL, 2001, p. 178). Por isto ser lembrado em dupla, como os pombos, ou as folhas de mirto, que sempre surgem gêmeas e de cheiro suave e verdes como amor que floresce. Mas também, destaque-se, o fruto do mirto é negro “a denotar que o amor dá fruto melancólico e angustioso.” (ABRAVANEL, 2001, p. 178).

Florescimento e morte, verdura e negritude, suavidade e amargor são características do amor que se percebem no tempo decorrido após a união dos amantes. Desse modo, ilustra Leão Hebreu, é justamente pelo tempo que se inicia a geração e corrupção do mundo inferior. Por desejar Vênus, Saturno cortou com sua foice os testículos de Urano, semeando o mundo inferior, chamado mar do mundo. Por serem forças correspondentes, Vênus de gerar e Saturno de morrer, ambos estão nas pontas da linha do tempo, ligados pelo desejo do amor útil.

A última abordagem do tema da melancolia nos Diálogos  de Amor dá-se quando Filon se queixa de Sofia pela falta de correspondência em seu amor. Tomado de desejo, Filon inclina-se para o amor intelectual, voltando-se para dentro de si mesmo. Assim como o corpo cobra da alma o amor do intelecto, e como a Lua tem amor ao Sol, Filon esteve em profunda contemplação intelectiva da beleza da amada, absorto em si (ABRAVANEL, 2001, p. 217), e do modo “como a alma com suas mutações transfere a luz do intelecto para o mundo corpóreo pelo amor que tem a ambos, também a Lua transfere a luz do Sol para o mundo terreno pelo amor que tem aos dois.” (ABRAVANEL, 2001, p. 240). Em estado melancólico, a alma de Filon transita entre o amor corpóreo de Sofia e a suma Beleza do intelecto.

Como em todo texto que produz, Leão Hebreu amplia o ensino proposto, numa crescente de sentido e significado. De modo que o tema da melancolia, iniciado em definições universais, afunila-se para o relacionamento amorável que permita ao amante e à amada consumarem o desejo de amor. Como isto ainda não aconteceu, surgem as queixas de ambas as partes. Dele por ser largado em desejo; dela por não aceitar que o amante encontre outra forma de contemplar a beleza desejada, por meio do amor intelectual, uma preciosa chave de sentido em Abravanel.  Por isto, queixando-se ela por ciúmes, visto que o amante passou a evitar seu desejo da amada, um curioso diálogo se estabelece:

Sofia – Bem agreste me pintas, ó Filon!
Filon – Antes sumamente ambiciosa, pois me roubas a mim, a ti e a todo o resto.
Sofia – Ao menos sou para ti útil e salutífera, já que te livro de muitos pensamentos molestos e melancólicos.
Filon – Mais ainda: venenosa!

Desse modo, na obra de Abravanel a melancolia é fruto amargoso do amor faltante. Experimenta a melancolia todo aquele que prioriza unicamente o amor útil. A falta do amor promove secura e frieza, postura saturnina, angústia cronologicamente medida. Não lhe basta desejar o amor enquanto nutre expectativa, não há deleite nisto. É preciso consumar o amor. Quando o tempo dele acabar, que venha o próximo. Se o amor lhe falta, o desejo lhe provoca melancolia.

Têm-se aqui linhas provisórias desse tema tão instigante. Cabem maiores ponderações no futuro. Por hora, esperemos a melancolia evadir-se.

ex uno omnia

 

 

Eclipse e cabala na leitura de Judá Abravanel (Leão Hebreu)

No próximo dia 19 de novembro de 2021, entre as 03h e 09h (horário de Brasília) ocorrerá um eclipse lunar. A propósito disto, seguem aqui algumas brevíssimas considerações sobre a perspectiva cabalista em Judá Abravanel (Leão Hebreu) sobre esse tema. São notas ainda provisórias, em progressão intelectiva tal como o eclipse, a serem concluídas até que aconteça o evento aguardado no orbe celeste.

Seguindo o princípio cabalista de que a realidade deve ser interpretada embaixo como em cima, no entendimento de Judá Abravanel, o Sol se assemelha ao intelecto divino; a Lua, à alma do mundo; a Terra, ao corpo. No Terceiro Diálogo de sua opus magnum, Leão Hebreu registrou uma definição dessa dinâmica:

“Filon – Assim como a alma é o meio entre intelecto e o corpo, sendo feita e composta da estabilidade e unidade intelectual e da diversidade corpórea, assim a Lua é meio entre o Sol (imagem do intelecto) e a Terra física, sendo feita e composta da única e estável luz solar e da diversa e variável tenebrosidade terrestre.” (ABRAVANEL, 2001, p. 230)

A partir disso, a correlação com a vida cotidiana se estabelece, de modo que o intérprete cabalista deve considerar como a alma humana movimenta-se em oposição ou copulação ao Intelecto e ao corpo. Transitando entre um e outro, a alma pode se tornar iluminada ou obscurecida, ao modelo do movimento da Lua, entre a Terra e o Sol. Mais próxima do Sol, mais iluminada; mais próxima da Terra, mais tenebrosidade corpórea.

Observando o céu, esses movimentos interiores se manifestam nas formas em que vemos o movimento da Lua no orbe celeste: em oposição ao sol, lua cheia; em copulação com o sol, lua nova; quarto crescente, quando caminha da lua nova à lua cheia; quarto minguante, quando caminha após a lua cheia em direção à lua nova.

Também isto tem um significado cabalístico: a lua cheia representa o momento em que a alma está plenamente voltada às coisas corpóreas, assim como a terra fica iluminada pela lua, pois “quando a alma leva para a corporeidade, na parte inferior, toda a luz que tem do intelecto, encontra-se em oposição inamistosa ao intelecto e afasta-se dele completamente.” (ABRAVANEL, 2001, p. 232). A alma daquele que se volta (ou seja, lança luz do conhecimento) para as coisas materiais e corpóreas, perde a razão e a luz intelectiva, que ficam obscurecidas em seu oposto (ABRAVANEL, 2001, p. 232).

O contrário também deve ser entendido sob essa ótica. Assim como Lua nova escurece-se para a Terra voltada em copulação ao Sol, entende-se que a alma retira a sua luz do mundo inferior e se volta completamente para o superior divino. Essa divina copulação representa a felicidade suprema e atenuação das coisas corpóreas.

Entendida essa dinâmica tripartite: Terra, Lua, Sol, e sua relação simbólica com o corpo, alma e intelecto, respectivamente, Sofia solicita a Filon: “Quereria saber se achas alguma semelhança entre o eclipse da Lua e as coisas da alma.” (ABRAVANEL, 2001, p. 235). E seu enamorado responde belissimamente:

“Filon – Também nisso o Pintor do mundo se não descuidou. O eclipse da Lua deve-se à interposição da Terra entre ela e o Sol que lhe dá luz: em virtude da sombra dela, a Lua fica inteiramente escura, quer na parte inferior, quer na superior; e diz-se “eclipsada” porque perde completamente a luz numa e noutra metade. O mesmo acontece à alma: quando entre ela e o intelecto se interpõe o que é corpóreo e terrestre, perde toda a luz que recebia do intelecto não só na parte superior, mas também na inferior, activa e corpórea.” (ABRAVANEL 2001, p. 235).

Assim, nesta definição de eclipse, tem-se o entendimento cabalístico do fenômeno celeste. Para nosso autor, esse é o período em que a disposição dos elementos promove momentos de grande obscuridade da alma, que fica alheia à luz intelectiva, plenamente “abjecta, […] igualada à alma dos animais brutos” (ABRAVANEL 2001, p. 235), assumindo a natureza destes; um conceito também encontrado em Pitágoras. Assim como os eclipses podem ser totais ou parciais, igualmente, a bestialidade da alma se manifesta em gradação, conforme o nível de iluminação recebida ou suplantada. “Como quer que seja, porém, a bestialidade – total ou parcial – é máxima destruição e sumo defeito da alma; e é por isso que Davi diz a Deus, na sua prece: ‘Livra da destruição e de ser presa dos cães a minha alma, meu único bem!’ [Sl 22.20]” (ABRAVANEL, 2001, p. 235).

Por fim, em leitura cabalista, o que se deve considerar com cuidado a respeito do eclipse que está para se manifestar? Bem, do mesmo modo como a Terra se posiciona entre o Sol e a Lua, “quando a sensualidade terrena se interpõe entre ela [alma] e o intelecto, fica eclipsada ao modo da Lua, torna-se escura e desprovida de luz intelectual, como acabo de te dizer” (ABRAVANEL, 2001, p. 235), explica Filon a Sofia. Portanto, eclipse é tempo cósmico de estímulo à bestialidade das ações humanas, de interposição dos bons propósitos, e assim sendo, é tempo em que se exige mais cuidado e moderação, numa prudente desconfiança de si.

SDG

 

REFERÊNCIAS

ABRAVANEL, Judá (Leão Hebreu). Diálogos de Amor. Tradução de Giacinto Manuppella. Coleção Pensamento Português. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001.

GOMES, Gilmar Araújo. Judaísmo e Literatura: A Teoria do Amor de Judá Abravanel (Leão Hebreu) nos Diálogos de Amor. São Cristóvão/SE: Universidade Federal de Sergipe (UFS), 2017. Dissertação para o Mestrado em Ciências da Religião.

Texto atualizado em 18/11/2021, às 10h33min.

O Principio Protestante em Paul Tillich

Comunica III Ciclo de Estudos do GPCOR

Comunica III Ciclo Estudos do GPCOR 2

No dia 28 de novembro de 2018, por ocasião do III Ciclo de Estudos do GPCOR (Grupo de Pesquisa Correlativos), apresentei a Comunicação intitulada O Princípio Protestante em Paul Tillich como reflexão ao panorama político do Brasil atual. A exposição teve por objetivo identificar o Princípio Protestante como categoria de análise das influências recebidas e transmitidas pelos ramos de confissão religiosa em meio ao panorama político atual do Brasil.

O resumo da proposta de comunicação apresentada à organização do evento pode ser lido AQUI

https://gpcor.wordpress.com/2018/11/14/3-ciclo-de-estudos-do-gpcor/